Seta para esquerda voltar para o blog

Quando dosar testosterona em mulheres?

A dosagem laboratorial de testosterona em mulheres, em grande parte dos casos, tem resultados imprecisos e, consequentemente, gera custos desnecessários para as pacientes. É o que afirma, em artigo no blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), o médico Emerson Cestari Marino.
Endocrinologista e membro da diretoria da Regional Paraná da Sbem desde 2014, Dr. Marino defende que a dosagem da testosterona no sangue, em laboratórios comerciais, é sujeita a diversos “erros” provocados pelos métodos utilizados. Com isso, achados com valores abaixo de 150 ng/dL – situação na qual se encontram, habitualmente, mulheres e crianças – são imprecisos.
O médico cita uma pesquisa do Colégio Americano de Patologistas, que avaliou a precisão diagnóstica da dosagem de testosterona por métodos comercialmente disponíveis. Uma mesma amostra de sangue foi enviada a diversos laboratórios, que  usaram igual metodologia.
Os resultados, em mulheres normais, variaram até 32%. Esse índice, nas palavras de Dr. Marino, demonstra uma “confiabilidade inaceitável” na dosagem de testosterona, comprometendo a sua utilidade clínica.

“Essa diferença se dá pela limitação própria dos métodos que usamos para fazer as dosagens. Existem métodos mais acurados para a dosagem de testosterona, mas são caros e frequentemente não disponíveis na maioria dos laboratórios”, explica o endocrinologista.

Diagnóstico clínico

Para Dr. Marino, a dosagem de testosterona em mulheres é indicada apenas no acompanhamento de terapia com a substância ou em caso de suspeita de excesso no organismo. Isso acontece quando a paciente apresenta, em demasia:

  • Oleosidade na pele
  • Acne
  • Calvície
  • Aumento de pelos, libido, tamanho do clitóris ou massa muscular
  • Irregularidade ou parada da menstruação
  • Atrofia mamária
  • Alteração no tom da voz

Esses sinais e sintomas, salienta o endocrinologista, podem ser encontrados nas doenças e nos tumores de adrenal e de ovários que produzem testosterona em excesso.
Quando a paciente relata sintomas clínicos, suas dosagens de testosterona, frequentemente, são elevadas, podendo ultrapassar 200 ng/dL. Isso aumenta a precisão da avaliação laboratorial, que, aliada à clínica, leva ao diagnóstico de síndrome hiperandrogênica.

“O diagnóstico presumível de deficiência [de testosterona] deve ser feito com base unicamente na história clínica. Dados relevantes como queixas sexuais, história reprodutiva/menopausa, sintomas sugestivos de insuficiência adrenal e passado de cirurgias em adrenal e ovários são informações que devem sempre ser questionadas”, frisa Dr Marino.

Outros androgênios

Além da testosterona, o endocrinologista cita outros hormônios de ação masculinizante (androgênios) que, em mulheres, só devem ser dosados na suspeita de excesso, e não na falta, com uma indicação específica:

  • DHEA
  • Sulfato de DHEA
  • Androstenediona
  • 17-OH progesterona
  • Di-hidrotestosterona

“Em geral, quanto menor o nível de circulação do hormônio, menor a precisão da sua análise”, reforça o médico.

“Nos casos em que existe a suspeita de excesso (…), a dosagem de testosterona e eventualmente algum outro andrógeno deve sempre ser considerada, com o intuito de se identificar a causa dessa alteração hormonal. Já nos casos em que se suspeita de baixos níveis de testosterona ou andrógenos, a dosagem, além de ser inútil, gera custos desnecessários e pode levar a um diagnóstico incorreto com tratamentos que podem ser prejudiciais”, acrescenta.

Reposição de testosterona

Ainda de acordo com Dr. Marino, as sociedades científicas divergem quanto à utilidade da reposição de testosterona na mulher.

“Os estudos são limitados em número de pacientes, demonstram resultados discordantes e os efeitos a longo prazo (…) ainda são desconhecidos, fazendo com que a indicação de repor esteja reservada para casos bastante específicos”, esclarece.

Para o Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sbem, o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) é a única indicação para uso da terapia com testosterona na mulher. Mas os sintomas precisam estar associados a sofrimento pessoal e presentes há mais de seis meses.
“Caso se opte pelo tratamento, essa escolha deve ser individualizada (…), já que não existem formulações específicas para a população feminina no mercado brasileiro. Desencoraja-se o uso de implantes hormonais nesse contexto”, orienta Dr. Marino.
O endocrinologista complementa que benefícios clínicos devem ser observados entre três e seis meses de uso de testosterona para tratamento de TDSH. Do contrário, a terapia deve ser interrompida.

Anabolizantes e sexualidade

Em outro artigo no blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças, o endocrinologista Emerson Marino lista os prejuízos à sexualidade dos esteroides anabolizantes – representados, principalmente, pelo hormônio testosterona e seus derivados sintéticos.
Em mulheres, o uso da substância provoca masculinização, com aumento do clitóris e do timbre vocal, além dos outros efeitos citados anteriormente, como oleosidade da pele, acne e queda de cabelo.
No sistema reprodutor, é inibida a liberação de gonadotrofinas, hormônios que controlam o funcionamento dos ovários (e também dos testículos). Isso pode levar a distúrbios menstruais, prejudicando a fertilidade feminina.
Os homens, por sua vez, podem ter, como consequência do efeito androgênico dos anabolizantes, aumento das mamas (ginecomastia). Já a deficiência de gonadotrofinas pode provocar a interrupção definitiva da produção de testosterona e espermatozoides, levando a impotência, infertilidade e sintomas do aumento da glândula prostática.
Todas essas sequelas, observa Dr. Marino, acabam por reduzir a libido, tanto nelas quanto neles, cortando um possível efeito estimulatório da testosterona.

Riscos ao coração

Como a função sexual está diretamente ligada à integridade do sistema cardiovascular, o uso de anabolizantes, tanto os similares à testosterona quanto os do hormônio do crescimento, trazem “consequências drásticas” ao coração e às artérias, alerta o endocrinologista.
Segundo Dr. Marino, diversos estudos mostram que a substância causa disfunção no músculo do coração, com aumento do tamanho do órgão, perda de força e desenvolvimento de insuficiência cardíaca no longo prazo.
Já nas artérias, pode ocorrer aumento da pressão arterial e do estímulo à deposição de placas de gordura (aterosclerose), devido à piora do perfil lipídico (colesterol). Com isso aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico (AVE), além de eventos em membros inferiores e rins.

“Outra alteração fisiopatológica com o uso da testosterona é o estímulo à eritrocitose, que leva ao aumento da viscosidade do sangue, podendo contribuir para os fenômenos tromboembólicos”, acrescenta o endocrinologista.

Efeitos comportamentais

Os anabolizantes podem provocar, ainda, dependência química e psíquica. De acordo com Dr. Marino, usuários da substância agem da mesma forma que dependentes de drogas como cocaína e crack: buscam doses cada vez maiores, a fim de sentir os efeitos que experimentavam no início do consumo.
Ainda na área comportamental, também é comum o aumento dos transtornos de humor, como depressão, agressividade e impulsividade. Segundo o membro da diretoria da Sbem-PR, há, até mesmo, registros de aumento da criminalidade e casos de violência.
Por fim, os anabolizantes podem causar alterações do sono, como apneia obstrutiva.
Em seu artigo, Dr. Marino conclui que o uso da substância, na busca pelo corpo ideal, por maior vigor físico e melhor desempenho sexual, “passa a ser contraditório quando temos conhecimento dos efeitos deletérios (…) em nosso organismo em longo prazo”.

Compartilhar:

© HZM 2023