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Carência de vitamina D em atletas: consequências e recomendações

A pandemia de Covid-19 afetou o mundo do esporte de diversas formas. Os períodos de isolamento social e fechamento de atividades consideradas não essenciais provocaram desde o adiamento da Olimpíada de Tóquio até a paralisação de treinos e competições nacionais. E se o público ainda se ressente de não ver seus ídolos como outrora, os atletas tiveram até a saúde física prejudicada.
Na Índia, por exemplo, quando os esportistas de elite retornaram aos treinos, após o período de lockdown, em junho, muitos apresentavam níveis baixos de vitamina D. A ausência da substância, produzida quando o corpo é exposto aos raios solares, pode levar a fraturas por estresse ou lesão muscular, especialmente quando os treinamentos são retomados após longos intervalos.

A vitamina D é um hormônio secosteróide que beneficia a saúde esquelética e extraesquelética, com papel importante no crescimento do músculo esquelético, na função imunológica e na modulação inflamatória, entre vários outros aspectos. Também favorece o desempenho esportivo por facilitar a absorção de cálcio pelo corpo, o que proporciona ao atleta maior força muscular.
Além disso, pesquisas mostram que a deficiência desse micronutriente lipossolúvel aumenta o risco de várias doenças crônicas e inflamatórias, incluindo hipertensão, doença cardiometabólica, artrite e certos tipos de câncer – males que podem acometer até mesmo os atletas.
“A vitamina D ajuda na recuperação dos músculos. Esse é o aspecto principal. Também está relacionada à densidade óssea. Às vezes, os atletas estão lidando com fraturas por estresse, e isso pode ser devido a uma sobrecarga, mas também pode ser por causa da deficiência de vitamina D”, observa o diretor de alto desempenho da Federação de Atletismo da Índia (AFI, na sigla em inglês), Volker Herrmann, em entrevista ao site The Indian Express.

“A vitamina D melhora a proliferação da célula muscular e facilita a recuperação do tecido do músculo depois do treino”, confirma o endocrinologista Yuri Galeno, professor das pós-graduações em Medicina do Exercício e do Esporte e em Nutrologia Esportiva do Instituto HZM.

Deficiência de vitamina D em atletas é comum

Embora quarentenas e lockdowns possam ter agravado o problema, a carência de vitamina D entre atletas não vem de hoje – e é mais comum do que se imagina. No artigo “Papel da vitamina D em atletas e seu desempenho: conceitos atuais e novas tendências”, publicado em fevereiro no periódico Nutrients, a médica espanhola Mirian de la Puente Yagüe e sua equipe atestam que o mundo vive uma pandemia de deficiência da substância.

“Atletas têm a mesma predisposição a baixos níveis de vitamina D [que o resto da população], sendo a maioria de suas concentrações abaixo de 20 ng/mL [valor considerado insuficiente] em uma ampla variedade de esportes, principalmente nos meses de inverno”, escrevem os autores, ressaltando que a suplementação de vitamina D beneficia o desempenho esportivo e previne lesões.

A constatação do grupo comandado por Yagüe é confirmada por um estudo com atletas universitários publicado em janeiro, também no Nutrients. Pesquisadores da Universidade George Mason e da área de Medicina Esportiva da Mayo Clinic Health System, ambos nos Estados Unidos, avaliaram o status de vitamina D entre jogadores das equipes masculina e feminina de basquete do George Mason Patriots, time que atua na principal liga universitária do país, a NCAA Division I (NCAA-DI).
Os atletas foram monitorados ao longo da temporada 2018-2019, e fatores como composição corporal, pigmentação da pele, exposição ao sol e ingestão alimentar foram considerados. No início do estudo, 13 dos 20 participantes (65%) tinham insuficiência de vitamina D.
“Esse resultado é consistente com uma recente revisão sistemática e meta-análise em que 56% de uma amostra total de 2.000 atletas residentes em nove países diferentes, incluindo os Estados Unidos, tinham níveis inadequados de vitamina D”, comenta, em depoimento ao site Science Daily, Margaret Jones, professora do Laboratório de Pesquisa e Teste da Escola de Cinesiologia e Medicina do Esporte da Universidade George Mason.
O estudo mostrou ainda que os atletas com pigmentação da pele mais escura tinham risco aumentado de deficiência de vitamina D no início da investigação. Já entre os jogadores com pele clara ou muito clara, no mesmo período, nenhum se enquadrou na categoria insuficiente.

“Embora seja um estudo-piloto com uma amostra pequena, os resultados fornecem mais evidências da alta prevalência de insuficiência de vitamina D entre atletas de basquete altamente treinados da NCAA-DI”, diz Andrew Jagim, pesquisador da Mayo Clinic Health System.

Atletas de esportes indoor tendem a apresentar menores índices de vitamina D

Como a luz solar adequada é necessária para a síntese de vitamina D pelo organismo, a exposição insuficiente à radiação ultravioleta-B (UVB) é a razão mais provável para um status abaixo do ideal. Portanto, é natural que praticantes de esportes indoor, como o basquete, corram maior risco de sofrer de insuficiência de vitamina D.
No artigo “Benefícios da vitamina D para a saúde esportiva”, de 2012, pesquisadores liderados pelo ortopedista americano Franklin Shuler afirmam que a carência do micronutriente chega a 94% entre atletas de elite do basquete e a 83% entre os da ginástica.

“Pode-se supor que a participação em esportes ao ar livre oferece uma vantagem para a produção de vitamina D”, escrevem os autores.

Isso, no entanto, não é uma regra. Os mesmos pesquisadores citam testes feitos na primavera com jogadores do New York Giants, uma das principais equipes americanas de futebol americano, que mostraram que 81% deles apresentavam insuficiência de vitamina D.
Nesse estudo da liga de futebol americano, a NFL, a concentração de 25(OH)D – principal forma de armazenamento da vitamina D no organismo – em jogadores brancos foi, em média, de 30,3 ng/mL (nanogramas por mililitro), e em afro-americanos, de 20,4 ng/mL.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o valor de referência de 25(OH)D no sangue, para atletas, é de 30 ng/mL. Aqui, entretanto, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia (Sbem), desde 2017, estabelece 20 ng/mL como valor mínimo desejável para a população geral.

A influência da cor da pele

A cor da pele, de fato, é mais um aspecto que afeta a produção cutânea de vitamina D, ao lado de vários outros, como local e horário do treino e da competição, tipo de esporte praticado, poluição, idade, latitude e estação do ano. A equipe do Dr. Shuler atesta que a melanina na pele de africanos ou afro-americanos bloqueia quase 99% da produção de vitamina D – redução semelhante a que se tem com o uso de protetor solar FPS 15.

“Afro-americanos precisam de exposição à radiação ultravioleta B 10 vezes mais longa para gerar níveis semelhantes de 25(OH)D em comparação com atletas de pele clara”, afirmam os autores.

Já Enette Larson-Meyer, professora de Nutrição Humana da Universidade de Wyoming (EUA), destaca, no artigo “A importância da vitamina D para atletas”, publicado em 2015 no Gatorade Sports Science Institute:
“A recomendação de obter de 5 minutos (em peles muito claras) a 30 (em peles mais escuras) de exposição à luz solar para braços, pernas e costas, perto do meio-dia, várias vezes por semana, sem protetor solar (…), geralmente leva à síntese e ao status de vitamina D suficientes”.
Larson-Meyer acrescenta que os atletas que não atingem a exposição regular ao sol precisam de vitamina D suplementar ou de uma combinação de ingestão alimentar e suplementação.

Recomendações para suplementação de vitamina D em atletas

No Brasil, em que há boa incidência de radiação solar durante todo o ano e a população, em grande parte, é mestiça, fatores como estação do ano e cor da pele não são tão relevantes quanto nos Estados Unidos. É o que garante o endocrinologista Yuri Galeno, que recomenda, para medição dos níveis de vitamina D no sangue, o aplicativo gratuito dminder, criado pelo médico e bioquímico americano Michael Holick, considerado a maior autoridade do mundo no micronutriente.

“O aplicativo calcula exatamente a quantidade de vitamina D que você ‘fabricou’, dependendo da cor da sua pele, da área que foi exposta, do dia e horário em que você se expôs e do local. É uma forma empírica de se avaliar a produção de vitamina D, sem precisar fazer exame de sangue”, explica Dr. Galeno.

Para atletas, entretanto, o endocrinologista salienta que o recomendado é fazer a dosagem de 25(OH)D no sangue, a fim de encontrar possíveis deficiências e repor corretamente. De todo modo, nos dois casos, o indicado é que praticantes de esporte recebam uma dosagem extra de vitamina D.
Atletas com níveis normais da substância – a partir de 30 ng/mL – precisam de suplementação diária de 1.000 a 3.000 UI (unidades internacionais). Já aqueles com deficiência de vitamina D necessitam de uma “dose de ataque” que varia de 30.000 a 50.000 UI por semana.
“A duração vai depender da carência do atleta. A dose de ataque pode ser feita por um, dois ou até três meses, para que ele atinja, pelo menos, o nível de 30 ng/mL”, ressalta Dr. Galeno, complementando que, uma vez alcançado o valor mínimo, deve ser adotada a dose de manutenção – 1.000 a 3.000 UI/dia.
A suplementação diária e os níveis adequados de vitamina D no sangue garantem ao atleta, no mínimo, quatro benefícios listados por Dr. Galeno:

“A vitamina D aumenta a quantidade de oxigênio no sangue, elevando a capacidade aeróbica do atleta. Em segundo lugar, aumenta os níveis de testosterona, o que melhora o desempenho físico. Além disso, evita que o músculo se lesione e, em caso de lesão, acelera a recuperação. Por fim, aumenta a quantidade de cálcio no músculo, fazendo com que o atleta tenha mais força, potência e explosão muscular. Com isso, por exemplo, ele aumenta a altura do salto e diminui o tempo de sprint – ou seja, corre mais rápido.”

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